Moda

Artistas gaúchos transformam resíduos da indústria têxtil que iriam para o lixo em obras de arte

A cada mês, uma única confecção têxtil de Porto Alegre gera 14 toneladas de resíduos. São sobras de tecidos que, frequentemente, acabam sendo destinadas a aterros. Pensando em reaproveitar parte desse material, o movimento Fashion Revolution convidou 30 artistas do Rio Grande do Sul a criarem e produzirem obras de arte utilizando os resíduos que iriam para o lixo.


"É para a gente refletir que o lixo que a gente gera não vai simplesmente para a lata do lixo, ele vai para algum lugar, não existe "fora"", explica a designer de moda Thaís Menna, uma das organizadoras do movimento na capital gaúcha.

Os tecidos deram forma a quadros, mandalas, acessórios e outras peças, que estarão em exposição nesta quarta-feira (24), das 15h30 até as 22h, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, na Capital.


A mostra "Não existe fora" faz parte da programação da Semana Fashion Revolution, que é realizada até sábado (27) e inclui debates sobre moda sustentável e consumo consciente (confira a programação).


A artista Katia Rezer Menger, de 51 anos, foi provocada a trabalhar com esse tipo de material pela primeira vez. Ela participa de um coletivo de Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre, chamado Transformarte, que topou o desafio.


"Quando nos deram dois sacos de 25 kg e somente duas estampas, praticamente umas tiras, nós pensamos: ‘meu Deus, o que nós vamos fazer com isso?"", confessa Katia.


Foi só a primeira impressão. Já em casa, olhando ao redor, a artista se deu conta de que teria uma série de elementos obsoletos que poderiam ser resinificados, como restos de piso laminado. Da mistura de materiais, a artista criou uma mandala e dois conjuntos de quadros.


"Para a gente, como artista, é mais econômico não ter que comprar telas. Aproveitei os laminados, até uma cortina velha eu peguei, a criatividade vai brotando", conta.


Os participantes do projeto podiam escolher o que criar e optar por combinar materiais, desde que a obra fosse pensada com esse espírito de reaproveitamento. No total, 100 kg de retalhos foram reaproveitados.


Os tecidos usados vieram de uma confecção de Porto Alegre. Por lá, parte das sobras é doada a projetos sociais, que fazem esse trabalho de reaproveitamento. Só que o volume gerado todo mês ainda é grande e, por isso, os aterros seguem recebendo o que não é absorvido pelas entidades.


A bióloga responsável pela parte da sustentabilidade da empresa, Marinês Fell, explica que desde o último ano a confecção tem se esforçado para reduzir a quantidade de sobras gerada, já que a reciclagem do material ainda é um desafio.


"A gente não tem empresas que trabalhem com a reciclagem do material, porque a composição é mista, é uma mistura de materiais, não é puro. A gente trabalha com fibras artificiais e dificulta porque não têm valor comercial pós-uso", explica a bióloga.


A designer de moda e pesquisadora Thaís Menna acredita que a moda sustentável não é apenas uma tendência, veio para ficar. Para ela, as indústrias devem participar cada vez mais desse processo, e o consumidor também tem um papel importante.


"É bem recente [a ideia de moda sustentável] e muito por pressão do consumidor, que pressiona a empresa a ter processos mais sustentáveis", acredita Menna. "O consumidor quer ter uma experiência de consumo, não é mais só vestir por vestir", completa.


Moda sustentável


Ao contrário da colega Katia, a artista Fernanda Capra, de 37 anos, técnica responsável pelo setor de artes visuais da Casa de Cultura de Cachoeirinha, já está acostumada a trabalhar com esse tipo de resíduo. "Já fazia parte. Trabalho com material reciclado, crochê que as pessoas doam", relata.


A ideia dela foi transformar uma calça jeans e as sobras de tecidos doados em uma bolsa e uma carteira customizadas. "A arte têxtil, até pouco tempo atrás, era vista muito para a questão do artesanato", justifica Fernanda, que busca explorar o têxtil de uma maneira diferente em suas criações.


A artista também se envolveu na obra desenvolvida pelo coletivo Transformarte, do qual também participa, ao lado de outras sete pessoas. Foram cerca de 20 dias de dedicação.


Intitulada "Reflorescer", a criação do grupo trata-se de um painel sobre o qual foi construída a imagem de uma árvore, representando a vida, a partir da aplicação de retalhos de tecido.


"A gente trabalhou em cima da sustentabilidade", define Fernanda. "É um momento que a gente está vivendo de parar para refletir e se conscientizar sobre valores socioambientais e reaproveitamento de resíduos", conclui.


Exposição "Não existe fora"


Data: 24/04/2019 

Local: Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223 – Porto Alegre)

Horário: das 15h30 até as 22h


As obras ainda terão espaço para visitação pública no Atelier Livre, no Teatro Renascença, em Porto Alegre, com data a ser definida, e na Casa de Cultura Demosthenes Gonzales, em Cachoeirinha, a partir do dia 27 de maio, onde ficarão por 30 dias.


*Foto: Geo Cereça